Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas na voragem do tempo
Quinta-feira, 11 de Maio de 2006
Flores de Maio...um mês como os outros



Estamos no mês de Maio que desde miúdo concebi como mês de flores. Além de ser o mês dedicado ao coração, é ainda, como sabemos o dia em que o primeiro Domingo é dedicado à Mãe. Felizmente ainda a tenho, bem como a mãe dos meus filhos e uma filha que é mãe duma linda e traquina menina. Enfim, seja Maio ou não, sou um felizardo...e não me queixo.

Mas afinal em que é diferente este dos outros meses?  Concerteza muitas diferenças essenciais, mas  não passa de um  duodécimo  de qualquer ano. Pode ter flores, muitas mães  enleadas e comovidas, muitos corações  sadios e  até doentes, mas continuará a ser mais  um mês  dentre doze de cada  ano  que  vivemos.  Ninguém poderá, todavia,  desligar-nos emocionalmente  de  um determinado mês dum ciclo anual, e ninguém poderá desdizer a beleza que cada um de nós encontra em determinado mês...das nossas preferências.

Há quem goste de Dezembro...Natal, neve, passagem de ano, etc., mas que diferença fará de Maio? Ambos são belos, cada um de sua forma própria.

Apesar de tudo ninguém poderá tirar a beleza a este Maio que nos envolve, e quem ama Maio adora a vida, não só pelas flores, corações ou simbologia de maternidade.

Maio será sempre Maio, com bons, belos, maus e horrorosos acontecimentos, mas não perderá a sua essência por tão antagónicos eventos no seu decurso de trinta e um dias de vinte e quatro horas cada...verdade inegável e evidentíssima!

A nossa vida, afinal, é feita de muitos Maios, e quantos mais nós virmos, ano a ano, florir, mais longa, e quiçá feliz, será essa nossa vida.

     

sinto-me:

publicado por dboliveira às 21:02
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Terça-feira, 21 de Março de 2006
Mudanças...outras andanças

Mudaram-me para nova casa de Blogs.sapo. Melhores grafismos, melhores imagens, maior facilidade de movimentação?

Cada um terá a sua opinião. Pessoalmente elaborei discretas modificações, perante as minhas limitações de conhecimentos informáticos.

Hoje 21/03/06, o dia é fecundo em representatividade e significância. Dia da Poesia e Dia da Árvore.

A Primavera, ensinaram-me que começava neste dia. Àrvores plantam-se todos os dias se quisermos, e deveríamos querer, para bem do planeta e consequentemente da Humanidade. Basta de desertificação, buracos de ozono e destruição florestal. Hoje não plantei uma árvore porque estive preso no meu serviço...onde as árvores são doentes que não quero ver "plantados". Mas prometo que amanhã vou colocar duas plantas na terra do meu quintal, mesmo sem que tenha hoje construído uma poesia em homenagem ao seu dia. Flores e poesia são irmãs na beleza e sensualidade estética. Ambas crescem da e para a terra... sem limites e fronteiras.

Embora hoje não tenha tido a oportunidade e inspiração para fazer um poema, deixarei transcrito um que há muitos anos publiquei para dedicar a uma flor que me acompanha há mais de 30 anos. Ei-la:

REPARA AMOR


Repara, amor, no além...

As nuvens correm céleres, entre azul,

mar azul sem sombras ocultas

nas etéreas masmorras do tempo,

e não são perseguidas pela famélica

e feroz voracidade de cães raivosos.

Prófugas, em famígera simpatia,

juntam-se, umas às outras, no preâmbulo

dum gélido, viscoso beijo.

Cada nuvem, semidolente, chora de frio,

um frio metálico e terrível, de saudades

pelo húmus sepulto na prolígera,

escura e álgida terra.

Como detestam os afagos solares!...

Heliófugas por sensibilidade timpânica,

versátil e capilar!...

Nos dias plúmbeos, pluviosos, derramam

purulentas cores na derme terrestre,

agridem os ridentes cendais da natura,

laceram o polínico hímen solar,

com frígidas carícias de pérfidos amantes...

As plantas dobram-se em plangente

flexão, de mímica suplicante...

Os homens, introvertidos e insípidos, mascam

tristezas inopinadas e reflectem

tonalidades lúgubres, lívidas, funéreas...



Agora pergunto, amor:

Serão as nuvens conscientes

de tão estranhas reacções?!...

Porque nos atormentamos, sangrando

as realidades que sobrevoam

as paroxísticas razões?!...


Deixemos, aos pobres espíritos errantes,

as minudentes e ontológicas explicações

da matéria e do espírito.


(In Jornal das Aves, 29/06/74)



publicado por dboliveira às 23:08
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Quarta-feira, 8 de Março de 2006
Dia da Mulher

                        tetenocas1.jpg


Hoje, dia da mulher, não queria deixar de prestar tributo à mulher da minha vida, que há mais de 30 anos me faz companhia e ajuda nos bons e maus momentos. Sem essa mulher também não existiria aquela mais pequenina que figura na foto, também ela uma mulher que, espero, irá dar continuidade à saga que as mulheres do seu passado iniciaram. Também quero deixar a minha homenagem a todas as mulheres do mundo, essencialmente àquelas que sofrem diariamente fome e múltiplas outras desgraças, e que vêem os seus filhos sofrer e morrer de carências evitáveis, perante a contínua indiferença dum mundo dito civilizado e solidário (?!...). Para estas mulheres a minha solidadriedade possível, desejando que continuem a luta de sobrevivência perante mundo tão cruel...talvez um dia as coisas mudem para melhor, apesar de continuar a existir uma diferença abismal entre o mundo dos que nada têm e dos que têm demasiado (que até se torna, para esses, supérfluo).


Força, mulheres deste mundo, pois vós sois o sangue, a carne, o ventre do futuro deste planeta, por muito conturbado que ele seja



publicado por dboliveira às 11:59
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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2006
Nem todos os sonhos são pesadelos

                                                 desilusao.jpg


É facto que o meu sonho não se tornou realidade, como muitos outros que já tive. Mas também, após despertar, não senti que se tratasse de um pesadelo. Talvez o que em gíria comum se chame uma “pisadela”, mas sem esmagamento objectivo ou até psicológico. Claro que não morro de amores por quem o povo elegeu, mas também não alimento desamores profundos pelo mesmo. Temos a capacidade de aceitação das coisas, e os portugueses da minha geração, habituados à dura deglutição de autênticos batráquios indigestos, já não sentem estranhamento no encaixe de qualquer evento desfavorável aos seus desejos e vontade.


Ninguém poderá também, quer se goste ou não, iniciar um julgamento por actividade ou factos ainda não acontecidos, pois a verdadeira reinação nem sequer começou. Aliás adivinha-se uma consensualidade nos primeiros tempos, sem recurso à conflitualidade por muitos augurada e até desejada por muitos outros que divergem de uma das partes institucionais. Talvez não venham, de momento, a ter esse mórbido prazer, pois a nobreza do cargo assumido pelo eleito, não o convidará a cometer prematuras ousadias de adversidade clubista.


Até se poderá dar o facto, nada estranho nem inesperado, de haver uma total e sadia convivência de respeito mútuo e inter-colaboração institucional, durante toda a fase de actividade política. E, se assim for, muitos dos que o elegeram vão roer-se de ódios e mesquinhas vinganças.


A Pátria vai continuar o seu desgaste de trinta anos de liberdade, continuando a proteger os fortes e a explorar os fracos, pois não espero o contrário. A vida já me habituou a ver a realidade com o espírito do desinteresse e sem a esperança de relevantes alterações no sentido da positividade por muitos almejada e, por muitos mais, merecida. Somos e seremos, como sói dizer-se, um país eternamente adiado, desde a longínqua espera do velho do Restelo. Continuaremos mergulhados no denso nevoeiro dos fazedores de desilusões. 



publicado por dboliveira às 20:46
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2006
Tive um sonho...que espero ser realidade.

              sonho1.jpg                                         dream1.jpg



Toda a gente sonha e, como não sou diferente desse mundo de “toda a gente”, tive um sonho, fruto de sons intensos que se infiltraram nos tímpanos, previamente, ao ritmo da TSF e doutras fontes sonoras que me zurziram os ouvidos num quotidiano vaivém de quilómetros percorridos.


Vislumbrei enormes multidões em reboliço, múltiplas bandeiras policolores, gritaria frenética e caótica, palavras de ordem cadenciadas, alarido em massa...a loucura.


Algo distante, num fundo quase imperceptível, uma voz, similar à do “tolle lege” de Santo Agostinho, sussurrava-me: “Cavaco não ganhou à primeira”. Sorri, com amplitude Norte-Sul, e deixei-me enlear de felicidade. Afinal o que parecia, não era. Contrariamente a todas as sondagens publicitadas, a esfinge política teria de enfrentar um novo repto. A direita, unida a alguns pobres e iludidos sado-masoquistas, acabou por sofrer o primeiro desaire.


Nos bastidores decorriam dezenas de conferências de imprensa, entrevistas de última hora. Enfim, mil e uma formas de explicar o que parecia inexplicável. Era um frenesi de especialistas na matéria, jornalistas de vanguarda, comentadores de inspiração quase divina, analistas de profundas matérias políticas...enfim, uma imensa mole de doutos conhecedores do assunto, a quem as sondagens pregaram uma enorme partida.


Afinal as sondagens não contaram o peso dos indecisos, quase 11% nas últimas avaliações...Estes indecisos tinham a mente espartilhada entre o Alegre e o Soares, portanto não engrossavam as fileiras de Cavaco. Eram, além doutros, na sua maioria socialistas envergonhados que votaram por “descarga de consciência” e contra as duras “disciplinas partidárias” no candidato dos espinhos da rosa: Alegre. E este generoso socialista que colocou, temporariamente, o cartão de filiado na gaveta, acabou por ser o verdadeiro adversário do tão cabisbaixo e desiludido Cavaco e seu aristocrático séquito. Obrigaria, assim, a uma segunda volta eleitoral, todos aqueles que pensaram e ficticiamente construíram sonhos de “única volta”.  Afinal, Alegre, isolado, quase ostracizado pelos que tão amigos pareciam, acabou, com mérito e reconhecimento dos seus verdadeiros amigos, por ser o eleito para o “duelo” seguinte. Boa, Manel, pensei eu, contrariamente ao seu camarada que lhe deixou a mensagem dos vencidos: “ Manel, ganha juizinho...”  Apenas exclamarei: ”Vae victis”, como alguém bem disse, já “in illo tempore”.


Nesse sonho parecia-me ver um Cavaco desiludido, algo assustado com o seu futuro, idealizando uma esquerda perturbadora, subjugando todos os seus sonhos e remetendo-o para nova ascese e silêncio de mais dez anos de meditação transcendental, onde continuaria esfíngico e cogitando novas oportunidades futuras, ainda mais jovem que o agora  candidato Soares.


Sei que foi um sonho, mas há tantos sonhos que revertem realidade. Oxalá este cumpra o destino.  



publicado por dboliveira às 20:03
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Domingo, 8 de Janeiro de 2006
Essencial: conhecer o impossível...o Homem

        essenziale.jpg


                                                  (Foto da net)


No seu último romance, “As Intermitências da Morte”, Saramago recorre ao “Livro das Previsões” transcrevendo:«Saberemos cada vez menos o que é um ser humano».


Sem dúvida uma grande, talvez a maior previsão sobre o futuro da humanidade e do mundo que habita.


Afinal todos os dias nos esquecemos do homem, esse ignoto símio que se cruza connosco, que sofre dores e vive emoções, tal qual como nós, que miramos e não miramos, conforme a disposição e humor que nos invade. É facto que, por vezes, reparamos na presença do outro semelhante, mas ignoramos ou desdenhamos sua existência. É mais um!...pensamos nós. Amigo? Adversário? Indiferente? Queremos lá saber! O egoísmo invade-nos até ao tutano existencial e limitámo-nos a cumprir o ritual desassombrado da eterna indiferença perante os outros.


Mas quando existem interesses no interesse por esse “outro”? Ah!, aí calma! O “outro” poderá ser fonte de lucro para nós...convirá não ignorá-lo. Agiotas das almas, vendilhões de hipocrisia, valsamos ridículos salamaleques em redor do “outro” que nos interessa...até que os nossos objectivos sejam alcançados. Bem, depois, se o “outro” já não for útil...esquece-se, ignora-se...ultraja-se, se tal for necessário para o desenlace.


E é assim que vamos seguindo as normas de milhares de anos de convívio existencial, descrito e documentado em tantos outros milhares de cartapácios quase dogmáticos, escritos por outros, que já foram “outros”, e deixaram depoimentos e ideias...para esquecer e deixar empoeirados em estantes e gavetas. Escritos sedimentados na lama dos tempos e rotulados, muitas vezes, de “Livro das Previsões”, mas que dizem o que dizem, transmitem o que cada um pretende lhe seja transmitido, mesmo que a deturpação factual e literal seja necessária...para os nossos interesses.


Então que conclusão tirar, neste prólogo de 2006, acerca desse outro animal, simiesco e rotulado de HOMEM, animal de origem transmilenar? É, como sempre foi e será (?), um animal de interesses...logo, um INTERESSEIRO.


Continuaremos com essa certeza, mas na realidade “saberemos cada vez menos o que é um ser humano”.



publicado por dboliveira às 19:13
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Sábado, 31 de Dezembro de 2005
FESTAS FELIZES...A TODOS OS INFELIZES DESTE MUNDO

           chinanovo.jpg anonovo.jpg iear.jpg


Hoje pretendo


desejar apenas um


 FELIZ ANO


2006


a todos quantos


se dignaram aturar


 os meus escritos, parcos,


esporádicos e humildes.


 


Brevemente farei


uma retrospectiva


do ano 2005,


mencionando factos


 e anti-factos


 que zurziram o dorso


deste terráqueo labirinto.



publicado por dboliveira às 18:37
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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005
QUEM SANGRA FUNDOS DA SEGURANÇA SOCIAL?

   sng.jpg                                       sang.jpg


Muito se fala da insustentabilidade da segurança social no futuro. Não haverá fundos, nem forma de os conseguir, todos prevemos. É possível, mas tal ideia ainda é mais insustentável se nos detivermos na causalidade dessa mesma insustentabilidade. Quem desconta o quê e para quem? Que quantia recebem os que não descontam e se descontam, quanto? Será que muitos descontaram quanto bastasse para as suas actuais e chorudas reformas? E quem não descontou, acaso merecerá ser estigmatizado? A gravidade é acutilante, o Governo está a vê-la mas decide-se por sustentá-la, alimentando e permitindo a própria auto-destruição do sistema. Acham que poderemos continuar a pagar reformas e subvenções a políticos efémeros e “gestores” politizados, além doutras mordomias políticas, com valores inflacionados para os dias de hoje, como as de Mira Amaral e similares, bem como as que agora foram atribuídas a e Teresa Zambujo (2.996,12 euros), com 52 anos, aos ex-autarcas de Mafra e Seixal (3.172,36 euros), e a incontáveis outros, saudáveis, em idade laboral e ainda no activo? Foi agora uma corridinha frenética às reformas, por parte dos políticos, como Santana Lopes, Alberto João Jardim, Valentim Loureiro, Santana Lopes, além de muitos outros, que, ironicamente ainda estão em cargos políticos remunerados. Isto, numa altura em que qualquer funcionário público, naquelas idades e com muitíssimos mais anos de duras actividade e de descontos, terá já de esperar longo tempo por mais mísera reforma. Já nem quero falar dos que até aqui foram reformados mediante direitos e legislação (anacrónica e injusta) vigentes, cujo conteúdo era de conhecimento e informação reduzidas para a maioria do povo português que, praticamente só agora, começou a ver a verdadeira dimensão de certos benefícios políticos. Alguém poderá avaliar, entre actuais e ex-políticos, desde deputados, ministeriáveis, autarcas, etc., quantas reformas e subvenções políticas relevantes estão a ser neste momento pagas? Que quantia terá que entrar na CGA para pagar tais chorudas reformas? Já para não falar de certos funcionários públicos aposentados, com exclusividade temporária de serviço e cargos de direcção, que hoje conseguem estar reformados com remunerações quase duplas das de actuais seus colegas, em topo de carreira, e em actividade. Isto é uma autêntica injustiça, e só sucede num país como o nosso, que foi e continua a ser governado por princípios de interesse partidário e pessoal, sem se olhar para reformas miseráveis da maioria dos portugueses, que deixam perplexos quaisquer estrangeiro que nos visite e se inteire da realidade. Quando se acaba com as duplicações de tempo de serviço em certas profissões, em vez de se contabilizar como verdadeiro e efectivo tempo de serviço todas aquelas horas extras, quase obrigatórias, como as de alguns profissionais que fazem urgências consecutivas de 24 horas, semanais e que ao fim de 20 anos de serviço acabaram por trabalhar quase 30 anos. Alguém os protege ou protegeu? Assim vamos ter uma enorme franja de “jovens” imerecidamente reformados, quase todos saídos das classes político-partidárias que se alternaram nestes quase 30 anos de governos inoperantes que delapidaram o erário público e os fundos da U.E., entre eles, além de uma outra franja saída do comum funcionalismo público, ao abrigo dos 36 anos de serviço (com e sem duplicações de tempo de serviço). É lamentável quando se comparam os valores dessas reformas com as miseráveis do comum dos trabalhadores que muito mais tempo trabalharam e mais anos descontaram. Será razão para se dizer, sem grande margem de erro, que, na globalidade dos aposentados, o somatório das remunerações de 30% (os “bem reformados” , basicamente mais jovens) durante um mês, talvez ultrapasse o somatório das remunerações dos outros 70% (os “mal reformados”, mais desgastados e velhos) durante um ano. Digno de meditação profunda pelos governantes desta falsa Democracia. Assim sendo fica a questão: afinal, quem é que está a sangrar a segurança social, ameaçando a sua sustentabilidade futura? Responda quem souber.



publicado por dboliveira às 23:16
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005
Nós e os outros...do narcisismo à subvalorização

            vendelivros.jpg                               sem_abrigo.jpg


Por muito narcisistas que possamos ser, não deveremos nunca fixar-nos unicamente no nosso próprio umbigo, pensando que somos o centro e a periferia do mundo em que vivemos. Este egocentrismo patológico transforma-nos em autênticas marionetas de nós mesmos, e leva-nos ao desconhecimento de múltiplas facetas alheias, pessoas interessantes que nos rodeiam, além de um alheamento do belíssimo cendal estético que nos envolve quotidianamente. É e sempre foi óbvio que o mundo não somos apenas nós, limitados à redoma de vidro e à torre de marfim que nos abraça. Nós e os outros, o paradigma da verdadeira razão e sentido de existirmos. Vem isto como prefácio de um acontecimento vulgar, entre gente simples, mas não insignificante. Aliás desconheço gente insignificante, pois nós é que, na mesquinhez que nos assalta, acabamos por a subvalorizar. Cada coisa e cada pessoa valem o que valem, mas muito mais do que por vezes julgamos. Numa das minhas passagens de fim de semana, raras, pelo mercado da minha cidade, Santo Tirso, sou abordado por um homem com ar asténico e aspecto de pedinte, trazendo entre mãos umas folhas de A4 enroladas. Aproximando-se começa a desenrolar as folhas e, qual não é meu espanto, vejo nelas fotocopiadas poesias manuscritas que ele próprio diz ter escrito, para que, em vez de pedinchar, sentisse que vendia algo de seu. Fez questão de dizer que era Améliano (com acento no e) e não Aureliano, como muitos lhe chamavam, de sobrenome Araújo. Creio ter-me dito ser da Maia, e pelo menos tem esse nome escrito na terceira e última folha. Todos os poemas são manuscritos em nove quadras, rimados, sem métrica gramatical e com alguns erros ortográficos, mas visando conteúdos de ordem prática e filosófica. Se realmente forem da sua autoria e não plagiados, é de admirar o homem que se esconde por detrás daquela anónima simplicidade. Não será, decerto, um António Aleixo, mas outro valoroso pensador e poeta anónimo, que come as côdeas de pão duro que lhe retribuem a troco de cópias manuscritas, muitas vezes desdenhadas e por outros lançadas no mais próximo caixote de lixo. Goste-se ou não, pelo menos admire-se o esforço de alguém que vive sabe-se lá como e onde...


Para começar vou transcrever (com os erros gramaticais, que sublinharei) as primeiras nove quadras do Améliano:


A sabedoria é tesouro infalível
Desprezada por muitos, em vão,
Que Deus doou ao humano afável,
Para orientar toda a criação.


Adequira sabedoria e benevolência,
Inscreve-as nas tábuas do coração,
Vive-as com toda a evidência
Para suas palavras terem Vida e razão.


Enquanto vive, acresça amizade,
Fidelidade e atos de bom conceito,
Porque a morte não tem autoridade,
Nem por nós nada tem feito.


Nos tempos difíceis é despertar mais,
Aos ventos que sopram muitas razãos
Dos visinhos e os de fora mais,
Precisamos recebe-los como irmãos.


Seja sábio e desperte a toda a hora,
Alegre o seu coração e tenha paz,
Analise ventos que andam á nora,
Para desviar malignos de satanáz.


Tende paz entre vós, como irmãos,
Deixai a política e a ganancia.
No mar bravo, cheio de naus,
Sede amorosos e felizes na abundancia.


A coroa dos anciãos são os netos,
E a beleza dos filhos são os pais,
Par os pequeninos serem mais afectos,
E os pais, instruendos leais.


Olhe os rios, montes e floresta,
No mar, multidão de profundeza,
Há lá muita Vida, rica e modesta,
E nós somos heróis rudes na pobreza.


Há ouro, riquezas e bens magestosos,
Mas, os frutos do conhecimento,
São os valores mais preciosos
Para conduzir ao discernimento


 



publicado por dboliveira às 20:58
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2005
Do sofrimento ...e da morte

            morte.jpg                                                      cemiterio.jpg


Hoje é um dia em que tudo me parece manchado de negritude. Uma negritude envolvente e outra, mais intensa,  envolvida. A morte, apesar de libertação de mil desgraças, dança diante dos meus olhos. Não porque eu seja profissional de Saúde, mas, essencialmente na sua forma não patológica e concreta. Uma morte fantasmagórica, quase translúcida e revestida de transparentes cendais.


Primeiro transpira de tudo quanto é notícia, os horrores e o terror dum passado convulsivante da nossa capital, o Terramoto e Tsunami de 1755. Relembremos, mas livre-nos Deus de repetida desgraça. Bastou-nos ver e rever as desgraças recentes da Ásia, em pleno período de veraneio, com mortes e destruição inimagináveis. Para já não se falar dos furacões que edulcorado só tinham o nome. Enfim!, tristezas, dor, morte, destruição...


Além disso hoje é o dia de Todos-os-Santos, incluindo o anedótico "S. Nunca" que por vezes nos fazia ganhar umas prenditas, quando garotos. Adoro ver flores, mas cobrindo e enfeitando campos de morte até me parece um contrasenso. É curioso que desde miúdo matutava porque razão não plantavam as flores sobre as campas, pois nasceriam ali e ali ficariam longo tempo, com hipótese de novas florações futuras! É claro que sobre as lápides nunca poderiam nascer, mas eu só imaginava pedras, algumas extremamenre caras e belas, em sepulturas de gente rica, que não era o caso da minha família.


Outra coisa que achava estranho era a existência de autênticos palacetes no cemitério, ricos e faustosos mausoléus, que me faziam pensar nas diferenças sociais, mesmo na morte. E, mais tarde pensava que talvez fosse mais económico fazerem-se muitas gavetas, tipo propriedade horizontal, até porque a terra do cemitério nunca chegaria para que todos a comprassem. Hoje já vejo com outros olhos as novidades arquitectónicas que se vão implantando em algumas terras, com aspecto pragmático e bela arquitectura.


Hoje fiquei novamente muito triste porque estando de serviço de urgência tive que receber a minha mãe, já com 77 anos, com suspeita de novo acidente vascular cerebral. Tivera crises convulsivas, de novo, e queda subsequente. Partiu a clavícula, mas felizmente a TAC cerebral não evidenciava lesões cerebrais recentes...fiquei então um pouco mais feliz, neste dia em que tudo me exalava autênticas miasmas de morte.


Parece que afinal a Morte não me queria atormentar! Todavia encaro-a com toda a naturalidade, talvez por defeito profissional, mas tenho-lhe muito respeito, como é óbvio. Sendo certa, tem hora incerta, ou antes desconhecida, o que é positivo para evitar paranóias e angústias do seu conhecimento.



publicado por dboliveira às 20:59
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