Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas na voragem do tempo
Sábado, 27 de Agosto de 2005
Homens!...do caos à autodestruição

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Hoje não vou falar das poalhas que os ventos trazem, das vozes silenciosas que se cruzam no espaço transmissor, em que apenas se compreende o estalido da secura das árvores e seres queimados nestes malditos incêndios que teimam apagar-se, até da nossa memória, e os últimos eventos políticos dum Verão em estertores desesperantes. É o estiolar lentificado de mil anseios construidos na esperança que tarda a ser realidade. Valha-nos uma outra esperança, a do sonho... sonho que nos resta de um possível futuro mais risonho e favorável...sonho apenas. Mas enquanto vivemos em simbiose com o sonho, continuamos a sentir que ainda vale a pena viver, mesmo com o pesado fardo da miséria e até de uma nova forma de opressão, baseada numa pseudo-justiça social. Sim, falsa justiça que alguém cria com despachos, decretos, portarias e outras normas, para apenas favorecer, como sempre, uma classe política que teima em não se auto-justiçar, mas continua a penalizar um povo já de si martirizado. Abominável, é o termo.


 


De partida para uma quinzena de descanso, mexo na amálgama dos meus escritos de outrora e recordo um poema elaborado em 15 de Março de 1973, nos meus tempos de rebeldia universitária. Fala-nos dos homens desse tempo e que hoje continuam iguais, talvez mais iguais que nunca.


 


HOMENS


 


Homens!


Bloco de ilusões varando a realidade


com gumes de pranto


e lascas de espanto.


 


Homens!


Dilúvio de sangue, sem arca de Noé,


afogando dores,


estiolando flores.


 


Homens!


Aves de rapina, sem ninhos nas rochas,


com penas-panfletos


nimbando esqueletos.


 


Homens!


Estátuas paradas, em ruas desertas,


ocupando espaços,


com armas nos braços.


 


Homens!


Penas levadas por rajadas de vento,


semeando agruras,


criando torturas.


 


Homens!


Carrascos ocultos, no caos dos patíbulos,


beijando enforcados,


com olhos danados.


 


Homens!


Flores de negrume, em jardins de traição,


enfeitando leiras,


sujas de caveiras.


 


Homens!


Máscaras de fantoches embasbacados,


ocultando, a medo,


o horror dum segredo.


 


Homens!


Seres...animais...apenas homens!


Reais ou irreais..


Homens...nada mais!



publicado por dboliveira às 19:46
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Terça-feira, 23 de Agosto de 2005
fogo...água...suplício de Tântalo

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Com tanto incêndio inexplicável, por muito que as faúlhas se não compadeçam de voar ao toque do vento, entram-me no espírito autênticas baralhadas de pensamentos que me esquentam sobremaneira os neurónios. Assim, dou comigo sentado e a matutar o presente e o futuro da água que se arremessa fogo adentro, num autêntico abraço da sede à vontade de beber. E a água, senhores, nesta carência visível, neste sufoco de terra ressequida, de plantas estioladas...e tudo!... sem água, mas a mesma abraçando o fogo que a miséria e o crime atearam, floresta adentro...autêntico esbanjar de diamantes vitais. Vem-me à memória, num resplandecer de carências vindouras, a imagem mitológica do suplício de Tântalo, que os deuses castigaram a tocar água com sede, mas a mesma desaparecer-lhe, mantendo a sede em crescente sofrimento. E vejo-nos, tempos de amanhã, agarrados à procura desse diamante líquido e vital, sem que ele nos sacie a mesma sede...não que desapareça realmente, mas a qualidade e inocuidade desaparecerão, logo não será água, mas líquido inquinado e venenoso...anti-vital. Todos seremos, para mal maior dos nossos filhos e netos, autênticos “Tântalos”, tocando a água, mas não conseguindo bebê-la. Mas, atentemos, porque se deuses condenaram Tântalo, nós é que fazemos de deuses (menores) e nos auto-condenamos. Já que falo da água, embevecido em pensamentos nefastos sobre fogo e água, lembrei-me de reler uma revista que trazia algumas curiosidades sobre a mesma água. Para quem não leu, e achando de interesse para os dias de hoje, com a canícula e os incêndios, vou expor algumas curiosidades. A água, bem escasso e não regenerado, cobre 70% da superfície da Terra, no entanto só 2,5% da água deste planeta azul é doce, havendo 0,3% em rios e lagos. Mais de 97,5% da água do planeta é dos oceanos, e esta não pode, na sua singeleza natural, ser utilizada em indústria, agricultura ou para beber, apesar de hoje já se proceder à técnica da dessalinização. Nos últimos 100 anos a população da Terra triplicou, mas o consumo da água por pessoa aumentou seis vezes. Cerca de 1,4 biliões de pessoas não têm acesso a água potável. Há cerca de um bilião de pessoas que têm que caminhar à volta de três horas/dia para conseguirem obter água potável, essencialmente em zonas rurais africanas. Actualmente 69% da água é consumida na agricultura, principalmente na irrigação, consumindo a indústria cerca de 23% e o uso doméstico apenas 8%. A tendência da indústria será a de aumentar o seu consumo de forma significativa. Morrem anualmente cerca de 7 milhões de pessoas devido a doenças transmitidas pela água, sendo, à volta de 2,2 milhões, crianças com menos de cinco anos.


Uma torneira com fuga pode gastar 10 litros de água por dia.


Gastam-se cerca de 7 litros de água para lavar roupa à mão.


Um duche de 5 minutos pode consumir 135 a 190 litros de água.


Um banho de imersão pode gastar 139 a 190 litros de água.


Regar o jardim à mão pode gastar 38 litros de água.


Uma máquina de louça, ciclo completo, gastará 25 a 75 litros de água.


Uma máquina de roupa, ciclo completo, gastará cerca de 228 litros de água.


Um autoclismo, fluxo normal, gastará 19 a 32 litros de água.


Um autoclismo, fluxo baixo, gastará 7,6 a 15,2 litros de água


Uma fuga de água na sanita pode perder 50 litros por dia.


Lavar dentes com água corrente pode gastar 38 litros.


Barbear-se com água corrente poderá gastar 76 litros.


Apesar de variações nas estimativas, em média cada pessoa gasta 300 a 400 litros de água por dia, sendo o maior consumo em banhos e autoclismos.


Uma piscina olímpica, com 50m de comprimento, por 22m de largura e 2,7m de profundidade, comporta 3 milhões de litros de água.


Para produzir um barril de cerveja, são utilizados 5.678 litros de água.


Sabemos que o corpo humano é composto por mais de 60% de água; o cérebro tem 70% de água, o sangue 62% e os pulmões cerca de 90%.


O suprimento total de água no mundo inteiro rondará os 522 milhões de Km3, o que é equivalente a 3,8 triliões de litros. Mas atentemos que a globalidade da água no planeta mantém-se inalterável, nos vários biliões de anos da sua existência, pelo que se o consumo se mantiver nos padrões e ritmo actuais, duas em cada três pessoas viverão em carência de água no ano de 2025 (já tão próximo!), e numa altura em que a exploração dos recursos terá aumentado cerca de 70%.


Em suma, isto dá que pensar seriamente, mas devemos ser todos a pensar e não só alguns que poderão ser apodados de “poupadores da farinha e esbanjadores do farelo”. Não esperemos pela condenação tantâlica de uma humanidade que se diverte olhando e remirando o seu umbigo, esquecendo que a água, quando foi criada, foi para todos.



publicado por dboliveira às 20:33
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Terça-feira, 9 de Agosto de 2005
os burros...e a esperança

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Quando era aluno liceal, (belos tempos!), recorda-me de um colega e amigo ter escrito uma dedicatória numa pagela, para mais tarde recordar, que dizia apenas isto: “a esperança era verde, mas veio um burro e comeu-a”. Achei piada, todavia só algum tempo mais tarde, por mera casualidade, me debrucei sobre a tal pagela, e entendi alguns porquês daquela caricaturada frase. É claro que deduzi que o burro confundiu a esperança com uma lauta refeição de boa erva. Também sei que quando Deus criou a relva, foi para todos, só que poucos ali pastam e usufruem sua clorofila e prazer. Alguns, nela se deitam e espreguiçam os costados, num desmaiar de cansaço. E agora, com tamanha secura e o lenhoso hálito das florestas incineradas, até saberia muito bem tal refastelamento, com frescas bebidas por companhia. Mas voltando ao burro que comeu a esperança, julgando que era relva, Deus nos livre de muitos outros burros que nos comeram e continuam a comer o verde da grama. Mas gramamos e lá os vamos vendo comer as nossas esperanças. Estes dias até sonhei que de tão verdes, que não esperançosos, que estamos, alguns desses burros, por aí sem arreios, depois de tanto pastar, tiveram um autêntico desarranjo visceral, que, desculpem-me a ousadia, cagaram-se de autêntico desespero, por tanta esperança ingerida. Coisas de quem, como o peixe, morre pela boca! Com tanto incêndio por aí, vai-se esfumando a verdura, que é como quem diz a esperança, e os burros, com arreios ou sem eles, vão ter que buscar novos pastos...e lá se irá a esperança doutros. Não me sinto desesperado, mas com tanta agitação da asinice, começo a ver estiolar-se e esmaecer a verdura de muitas esperanças goradas.


 


À guiza de conclusão direi: que a nossa esperança não seja pasto dos mesmos burros de sempre...de contrário, pode haver metamorfose inversa.



publicado por dboliveira às 22:02
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Terça-feira, 2 de Agosto de 2005
A indesmentível dicotomia do ter/merecer

                                              


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Na leveza do ser e não ser, do ter e não ter, há os que têm o que merecem, e os que merecem mas não têm. Do ter e não ter, merecer e não merecer, vive o mundo em confrangedora assintonia.Da plêiade dos que têm o que merecem abundam os amordaçados e os bafejados da sorte...que, não apenas sorte e desgraça, os envolve. Dos que merecem mas não têm, ou carecem de sorte ou serão negligenciados. Se um povo tem o que merece, aí mesmo haverá quem tem o que não merece...quer no bem quer no mal. Do merecimento das pessoas poucos se interessam: apenas os críticos e crónicos da maldicência. Quem tal pensa, quase sempre tem o que não merece. Mas que se poderá ter com ou sem merecimento? Muitas e variadas coisas, desde a sublimidade ao infinitamente abjecto. Há quem mereça Deus, mas Deus também não merece certos humanos de pérfidos princípios e obsoletos costumes. Certo, que a César o que lhe pertence, mas nem tudo César merece. Há quem mereça riqueza palpável e dela não usufrui, mas tantos a merecem e não gozam dos seus prazeres sensoriais. Já aqui, neste quase bucólico recanto de palavras esparsas, falei de ricos e pobres, os de mérito e demérito, mas relembro que a pobreza quase nunca é culpa dos seus portadores...mas, embora tal custe a muitos, deve-se às injustiças e ingratidão dos ambiciosos detentores do Poder. Jamais alguém conseguirá desligar o Poder da riqueza e da pobreza existentes...os destinos não são fruto da genética, mas aquisição existencial. O destino do merecimento é construído numa plataforma de hábitos selvagens da humanidade. A bipolaridade factual será indestrutível: temos o que merecemos, não merecemos o que temos, merecemos mas não temos...e assim por aí fora, ao sabor dos tempos, dos costumes, dos políticos, dos homens...que estes é que geram destruição e injustiças, baseados na avidez do ter e do poder. Julgam os homens conforme lhes apetece, com leis construídas à sua desejada dimensão, contróiem mitos e lendas ao sabor das apetências, levantam heróis e anátemas à medida da sua tacanhez espiritual...tudo em nome do poder e riqueza que os fracos e subjugados lhes concedem. Da riqueza à pobreza, da saúde à doença, da vida à morte...em tudo o homem interfere, com ou sem merecimento. Uma coisa é indesmentível: nesta dicotomia do ter/merecer, como em tudo na vida, não existirá o sempre nem o jamais.



publicado por dboliveira às 23:08
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