Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas na voragem do tempo
Terça-feira, 20 de Setembro de 2005
A culpa é dos médicos...conclusão de génio

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Destaca-se num jornal médico, "Tempo Medicina" de 14 de Setembro que « o Ministério da Saúde voltou a relacionar o "grave" problema das infecções hospitalares com certos comportamentos médicos, como não lavar as mãos ou usar gravata.» É claro que os dirigentes de algumas organizações médicas consideraram tal acusação um autêntico "disparate". Para quem desconhece, as infecções contraídas nos hospitais, muitas vezes por micro-organismos multi-resistentes aos antibióticos de uso mais comum, são conhecidas por infecções nosocomiais. Muitos doentes com depressão da sua imunidade, ou seja, das suas defesas naturais contra as infecções, quando têm alta clínica, vão para o seu domicílio, não raras vezes, a "incubar" uma dessas infecções, quando não as contraem ainda no internamento. É claro que os primeiros voltarão, concerteza às camas do hospital, onde serão submetidos a novos exames e tratamentos...enfim, mais sofrimento para eles, trabalho e despesa para a instituição hospitalar. Mas, o que muito me espanta e deixa atónito, são as doutas conclusões da veiculação dos agentes infecciosos pelas mãos sujas e pelas gravatas dos médicos. Não coloco em questão que tais agentes poluem e se impregnam nesses veículos, mas a displicência e referência (apenas) aos médicos hospitalares soa-me a busca persecutória de culpados para a muita falta de higiene que grassa pelo mundo hospitalar, de que não só os médicos serão culpados, entenda-se. Todos os agentes de saúde que dia a dia, quase sempre em péssimas condições de trabalho e instalações, labutam em antros de infecciosidade potencialmente agressiva para os mesmos, são eventuais transportadores e transmissores dessas infecções nosocomiais. Já em Junho deste ano, em visita ao Hospital de S. João, no Porto, Correia de Campos criticou os clínicos acusando-os de serem "insensíveis" ao problema das infecções, que naquele hospital eram relevantes. Disse então: « Se a prevalência da infecção é de 18% há, de certeza, muito desperdício e há muitas mãos que não são lavadas quando passam de um doente para o outro». Poderá assistir-lhe alguma razão, mas se todos pensarmos racionalmente veremos que os clínicos ao cultivarem essa porca insensatez deverão ser as primeiras vítimas do desmazelo. Ou será que os clínicos, de tão porcos e escudados na doença, já estarão imunizados? Decerto até pensam que os médicos não são feitos de carne e osso, pois além das más condições de trabalho, na sua maioria, ainda têm que suportar "borrifadas" de tudo quanto é infecção, má-educação de alguns doentes e acompanhantes, etc...e comem e calam. Sou médico hospitalar há muitos anos, nunca usei gravata no trabalho (raramente a usei na minha vida) e costumo lavar as mãos quando mexo em doentes, e, muito mais, quando me "cheiram" a infectados perigosos. Corro mais riscos que qualquer cidadão comum, mas os mesmos que todos os profissionais de saúde. Nunca tive qualquer subsídio de risco profissional, nem nenhum dos meus colegas hospitalares. Já me posso considerar mais feliz que alguns meus colegas que sofreram infecções hospitalares, pois nunca fui apanhado na rede infecciosa nosocomial, ou outra. Nunca fui agredido por pessoas, contrariamente a colegas meus, nem agredi ninguém...mas, não sou nenhum santo nem super-homem! Sem dúvida que lavar mãos, ter hábitos de higiene e precaução na lide com doentes infectados, é deveras importante, mas desde aí até aceitar a culpabilidade dos males hospitalares que partem de péssimas infra-estruturas e maus condicionalismos, vai uma distância abismal. Devo dizer que o consultório onde há anos trabalho, só há cerca de um ano tem lavatório (tal como muitos outros), e produtos de higiene e limpesa só agora. E, atentem, trata-se de um hospital moderno, até há pouco um SA. Palavras para quê?...é gerido e utilizado por portugueses (entre os quais até me sinto bem...é do hábito). Não sei porque não fala o Ministro da Saúde, das más condições em que se encontram, nos quentíssimos dias de Verão, todos os doentes internados, em ambientes abafados das enfermarias, sem ar condicionado, mas apenas com ventoínhas nos corredores (alguns sem estas) espalhando os micróbios pela atmosfera, muitos deles com dispneia e insuficiência respiratória grave. No entanto, em simultâneo, nos corredores e gabinetes administrativos o ar condicionado é sinal de bem-estar para a elite, não doente e bem paga, além de permanecer a milhas das infecções, onde só se deslocam por obrigatoriedade ou para visitarem familiares ou VIPs. Os hospitais poderão ser antros de porcaria e infecções, mas não é culpa maior, e muito menos exclusiva, dos médicos. As administrações, se formos atentar na essência do problema, serão muitíssimo mais culpadas.



publicado por dboliveira às 23:15
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Domingo, 18 de Setembro de 2005
Fragmentos...de factos e anti-factos

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Apesar de nunca o ter feito, e porque ainda não tentei hiperligações, hoje, excepcionalmente e pela primeira vez vou publicar o mesmo artigo que publiquei no meu outro blog "deputado-da-abstencao.blogspot.com", já que os leitores provavelmente serão diferentes nos dois. Peço desculpas pela duplicação, mas afinal a fonte é a mesma.


 


Quando um cidadão anónimo regressa de umas pacatas férias, a ausência de informação temporária, apesar de ter estado tão perto e no país vizinho, deixa-o deveras espantado. Como será possível que os acontecimentos das últimas três semanas sejam um autêntico repositório de tudo aquilo que não se pretendia nem se augurava, uma autêntica repetição de factos já passados e até censurados pelos actuais detentores do poder político? Afinal existe motivo para se concluir que, mais pincelada, menos borrão, todos agem da mesma forma, assentes nos mesmos interesses.


Sempre pensei que a atitude moral e rígida do Eng.º Sócrates, fosse para agir de forma a que todos fossem pagadores de uma crise que quase só políticos anteriores (entre os quais ele próprio) criaram e alimentaram. No entanto, contrariamente ao voluntarismo inicial que mostrava, concluo (como muitos) que afinal eram apenas promessas e palavras ocas, na maioria dos casos. Como sói dizer-se, a montanha lá vai continuando a parir ratos...e às vezes é cada ratazana!


 


No que concerne ao rescaldo da anormal quantidade de incêndios durante este Verão, apesar de haver uma maioria de fogos postos, não são procurados os verdadeiros, repito verdadeiros, causadores de tamanha destruição do nosso património florestal e de muitas vidas (incluindo humanas e animais da nossa fauna), para já não falar de lares destruidos e bens familiares desfeitos em cinzas.. Prendem-se, temporariamente, alguns pirómanos suspeitos, mas nada mais se faz, esquecendo-se que, em grande parte destes incêndios, há subjacentes interesses de pessoas e empresas em que ninguém parece querer mexer, ou, nem sequer, indagar.


O prejuízo foi enorme, mas creio que tudo vai passar ao esquecimento, como sempre, e no próximo ano, com ou sem meios mais sofisticados, vamos ter mais do mesmo...estamos habituados.


 


Mário Soares acabou por ser candidato. Não posso, nem devo censurá-lo na plenitude, pois afinal foi mais ousado que outros para se colocar na área de influência do partido socialista. No entanto sabemos que numerosos militantes e simpatizantes socialistas não morrerão de amores pela sua reeleição. De receosa, e quiçá cautelosa, disponibilidade em disponibilidade, Alegre não teve a ousadia, até hoje, de se lançar na praça das candidaturas, talvez para não ferir a disciplina partidária e táctica de Sócrates, ou, até, por não ter a certeza de ser capaz de confrontar essa tão arreigada disciplina partidária que o poderá transformar num renegado do “clube da rosa”.


Cavaco, que Soares catalogou como carente de “cultura humanística” e de “falta de perfil” para ser Presidente da República, apesar de o elogiar como homem, acabou por se manter agachado por detrás do seu eterno “tabu” e, numa jogada tipo “prognósticos só no fim”, reserva-se para o período pós resultados das autárquicas...verdadeiro jogador! Será que esta atitude entra na sua falta de perfil...ou será falta de coragem perante ausência de eventual contexto político actual? O resultado da queda dos socialistas (que se adivinha nestas autárquicas) talvez possa ser o trampolim da sua candidatura, mas que se acautele o Professor porque o eleitorado português é sempre imprevisível, e o “tabu” poderá eternizar-se.


 


“Passo a passo, devagarinho, para se notar pouco, o Governo e a maioria do PS estão a tomar de assalto todos os lugares-chave que constituem o verdadeiro poder” dixit Luis Delgado, in Diário de Notícias, a 16/09/05.


Certíssimo e incontestável. Todavia nada que os anteriores detentores do poder político, mai-los seus antecessores, etc., não tenham, como todos sabemos, feito, perante a impotência de quem lá os colocou e nada recebeu...a não ser promessas incumpridas.


Pessoalmente, com alguma ingenuidade, acreditei que Sócrates não fosse repetir tanto esta distribuição de benesses pelos seus apoiantes no poder, mas realmente tenho a evidência que o clientelismo partidário continua a ser uma avassaladora praga do nosso sistema político, sempre em nome da confiança política e da necessidade de homogeneizar e optimizar a eficiência do sistema vigente. Creio que existem efectivamente lugares de necessária confiança, mas não tantos! Reafirmo, que se todos somos portugueses e queremos (quererão todos?) o desenvolvimento e progresso do País, porque motivo desconfiar da governação de um social-democrata em qualquer ministério dum governo socialista, se for um gestor sério, eficiente, acima de tudo, e se limitar a cumprir o programa do mesmo Governo, sem boicotes e com os olhos postos no futuro do nosso País. Concerteza a sua conduta e eficácia seriam fiscalizadas, tal como a de outro qualquer governante, pois todos deverão responder pelo seu desempenho nas tarefas governamentais. Teremos é que, sem tecnocracia doentia, colocar bons técnicos em todas as áreas dos ministérios chave do País, caso contrário continuaremos pelas veredas da injustiça social, corrupção e falta de seriedade, acabando por desaguar, como será previsível, numa labiríntica bancarrota sem porta de saída...e, daqui aos caos e lutas fratricidas, faltará apenas a espessura de um cabelo.


 


“Então não me cumprimenta? Extraordinário! Que grande ordinário!”, dixit Carmona Rodrigues, após debate com Manuel Carrilho, in SIC Notícias, a 15/09/05.


Eis realmente comportamentos políticos, ordinários no fim e durante debate. Um, permita-se a expressão, recorda e chama ao debate a história da “merda”, com que tenta sabujar a imagem do outro. “Merda” que já tinha sido resolvida em Tribunal, e a favor do ordinário que, para não sujar de merda a mão de quem o sujou, preferiu mandá-lo “à merda”. Qual dos dois o mais ordinário? Logicamente que as opiniões se dividirão conforme as simpatias políticas e até pessoais, pelos dois intervenientes, no entanto concluirei...a verdadeira merda e ordinarice foi o debate que, felizmente, não se repetirá nesta fase eleitoral.


 


Para terminar não queria deixar de abordar aquilo que muitos consideram um autêntico contra-senso: os Magistrados vão fazer greve. Um órgão de soberania vai agir de forma autenticamente impensável, aproveitando, ainda por cima, o período do feriado de uma quarta-feira, feriado nacional. Oportunismo? Terão razões lógicas para tal atitude já conotada de corporativista?


Acredito que estejam “ofendidos” pela perda de regalias (direitos adquiridos?) que a maioria não tem, nunca teve, nem terá. Creio que as férias judiciais nunca seriam razão bastante para esta atitude, pelo que as benesses que perderão são acrescidas a esse facto, tais como aumento da idade da reforma e passagem ao regime de ADSE. Nada que outros funcionários públicos, menores, não tenham sofrido também, mas com menor alarido. Acredito que nem todos os magistrados sejam apologistas de tal greve, assim como acredito que tenham razão para se queixarem, mas neste aspecto, também muitos outros funcionários públicos, menores e quadros técnicos superiores, terão razões para indignação, essencialmente quando os políticos continuarão a ter benesses e alcavalas que não serão suspensas já.


 


É, afinal, a contradição e falta de seriedade política do Governo de Sócrates, que dizia que todos seriam penalizados, mas não é bem assim, pois estes malandros que se encontram no poder, ainda usufruirão das benesses de antanho, sendo que as perdas serão para os que vierem. No funcionalismo público não está a ser assim, senhor Eng.º Sócrates. Será, então, esta a sua visão de equidade e justiça? Assim estamos deveras mal, e para pior caminhamos



publicado por dboliveira às 20:08
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