Na lonjura do horizonte a busca etérea da luminosidade espiritual...da doçura do sonho às agruras da realidade.Palavras e imagens que, devagar, divagam entre ignotas luzes, sombras e penumbras, de ciclos de vidas incertas e perdidas na voragem do tempo
Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005
Nós e os outros...do narcisismo à subvalorização

            vendelivros.jpg                               sem_abrigo.jpg


Por muito narcisistas que possamos ser, não deveremos nunca fixar-nos unicamente no nosso próprio umbigo, pensando que somos o centro e a periferia do mundo em que vivemos. Este egocentrismo patológico transforma-nos em autênticas marionetas de nós mesmos, e leva-nos ao desconhecimento de múltiplas facetas alheias, pessoas interessantes que nos rodeiam, além de um alheamento do belíssimo cendal estético que nos envolve quotidianamente. É e sempre foi óbvio que o mundo não somos apenas nós, limitados à redoma de vidro e à torre de marfim que nos abraça. Nós e os outros, o paradigma da verdadeira razão e sentido de existirmos. Vem isto como prefácio de um acontecimento vulgar, entre gente simples, mas não insignificante. Aliás desconheço gente insignificante, pois nós é que, na mesquinhez que nos assalta, acabamos por a subvalorizar. Cada coisa e cada pessoa valem o que valem, mas muito mais do que por vezes julgamos. Numa das minhas passagens de fim de semana, raras, pelo mercado da minha cidade, Santo Tirso, sou abordado por um homem com ar asténico e aspecto de pedinte, trazendo entre mãos umas folhas de A4 enroladas. Aproximando-se começa a desenrolar as folhas e, qual não é meu espanto, vejo nelas fotocopiadas poesias manuscritas que ele próprio diz ter escrito, para que, em vez de pedinchar, sentisse que vendia algo de seu. Fez questão de dizer que era Améliano (com acento no e) e não Aureliano, como muitos lhe chamavam, de sobrenome Araújo. Creio ter-me dito ser da Maia, e pelo menos tem esse nome escrito na terceira e última folha. Todos os poemas são manuscritos em nove quadras, rimados, sem métrica gramatical e com alguns erros ortográficos, mas visando conteúdos de ordem prática e filosófica. Se realmente forem da sua autoria e não plagiados, é de admirar o homem que se esconde por detrás daquela anónima simplicidade. Não será, decerto, um António Aleixo, mas outro valoroso pensador e poeta anónimo, que come as côdeas de pão duro que lhe retribuem a troco de cópias manuscritas, muitas vezes desdenhadas e por outros lançadas no mais próximo caixote de lixo. Goste-se ou não, pelo menos admire-se o esforço de alguém que vive sabe-se lá como e onde...


Para começar vou transcrever (com os erros gramaticais, que sublinharei) as primeiras nove quadras do Améliano:


A sabedoria é tesouro infalível
Desprezada por muitos, em vão,
Que Deus doou ao humano afável,
Para orientar toda a criação.


Adequira sabedoria e benevolência,
Inscreve-as nas tábuas do coração,
Vive-as com toda a evidência
Para suas palavras terem Vida e razão.


Enquanto vive, acresça amizade,
Fidelidade e atos de bom conceito,
Porque a morte não tem autoridade,
Nem por nós nada tem feito.


Nos tempos difíceis é despertar mais,
Aos ventos que sopram muitas razãos
Dos visinhos e os de fora mais,
Precisamos recebe-los como irmãos.


Seja sábio e desperte a toda a hora,
Alegre o seu coração e tenha paz,
Analise ventos que andam á nora,
Para desviar malignos de satanáz.


Tende paz entre vós, como irmãos,
Deixai a política e a ganancia.
No mar bravo, cheio de naus,
Sede amorosos e felizes na abundancia.


A coroa dos anciãos são os netos,
E a beleza dos filhos são os pais,
Par os pequeninos serem mais afectos,
E os pais, instruendos leais.


Olhe os rios, montes e floresta,
No mar, multidão de profundeza,
Há lá muita Vida, rica e modesta,
E nós somos heróis rudes na pobreza.


Há ouro, riquezas e bens magestosos,
Mas, os frutos do conhecimento,
São os valores mais preciosos
Para conduzir ao discernimento


 



publicado por dboliveira às 20:58
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Terça-feira, 1 de Novembro de 2005
Do sofrimento ...e da morte

            morte.jpg                                                      cemiterio.jpg


Hoje é um dia em que tudo me parece manchado de negritude. Uma negritude envolvente e outra, mais intensa,  envolvida. A morte, apesar de libertação de mil desgraças, dança diante dos meus olhos. Não porque eu seja profissional de Saúde, mas, essencialmente na sua forma não patológica e concreta. Uma morte fantasmagórica, quase translúcida e revestida de transparentes cendais.


Primeiro transpira de tudo quanto é notícia, os horrores e o terror dum passado convulsivante da nossa capital, o Terramoto e Tsunami de 1755. Relembremos, mas livre-nos Deus de repetida desgraça. Bastou-nos ver e rever as desgraças recentes da Ásia, em pleno período de veraneio, com mortes e destruição inimagináveis. Para já não se falar dos furacões que edulcorado só tinham o nome. Enfim!, tristezas, dor, morte, destruição...


Além disso hoje é o dia de Todos-os-Santos, incluindo o anedótico "S. Nunca" que por vezes nos fazia ganhar umas prenditas, quando garotos. Adoro ver flores, mas cobrindo e enfeitando campos de morte até me parece um contrasenso. É curioso que desde miúdo matutava porque razão não plantavam as flores sobre as campas, pois nasceriam ali e ali ficariam longo tempo, com hipótese de novas florações futuras! É claro que sobre as lápides nunca poderiam nascer, mas eu só imaginava pedras, algumas extremamenre caras e belas, em sepulturas de gente rica, que não era o caso da minha família.


Outra coisa que achava estranho era a existência de autênticos palacetes no cemitério, ricos e faustosos mausoléus, que me faziam pensar nas diferenças sociais, mesmo na morte. E, mais tarde pensava que talvez fosse mais económico fazerem-se muitas gavetas, tipo propriedade horizontal, até porque a terra do cemitério nunca chegaria para que todos a comprassem. Hoje já vejo com outros olhos as novidades arquitectónicas que se vão implantando em algumas terras, com aspecto pragmático e bela arquitectura.


Hoje fiquei novamente muito triste porque estando de serviço de urgência tive que receber a minha mãe, já com 77 anos, com suspeita de novo acidente vascular cerebral. Tivera crises convulsivas, de novo, e queda subsequente. Partiu a clavícula, mas felizmente a TAC cerebral não evidenciava lesões cerebrais recentes...fiquei então um pouco mais feliz, neste dia em que tudo me exalava autênticas miasmas de morte.


Parece que afinal a Morte não me queria atormentar! Todavia encaro-a com toda a naturalidade, talvez por defeito profissional, mas tenho-lhe muito respeito, como é óbvio. Sendo certa, tem hora incerta, ou antes desconhecida, o que é positivo para evitar paranóias e angústias do seu conhecimento.



publicado por dboliveira às 20:59
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